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"Explorações sobre a interface entre neurociência, psicanálise e o pensamento filosófico contemporâneo. Descubra as conexões entre a mente, o cérebro e a existência."
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Ter ou Ser: diálogo, leitura e a experiência de estar vivo
Ter ou
Ser: diálogo, leitura e a experiência de estar vivo
Introdução
Vivemos em uma cultura marcada pela lógica daposse, do desempenho e da acumulação. Ter bens, ter respostas, ter controle,ter reconhecimento. Nesse contexto, não é raro que as relações humanas se
tornem empobrecidas, ansiosas e defensivas. O trecho que inspira este artigo
aponta para uma distinção fundamental, presente na filosofia, na psicanálise e
na psicologia humanista: a diferença entre o modo do ter e o modo do
ser.
Durante um diálogo autêntico, as pessoas que
vivem no modo do ter confiam naquilo que possuem — ideias prontas,
certezas, status, argumentos. Já aquelas que vivem no modo do ser
confiam naquilo que são: na própria vitalidade, na abertura ao novo e na
capacidade de responder criativamente ao encontro. Essa diferença transforma
não apenas a conversa, mas também a experiência da leitura, compreendida aqui
como uma forma de diálogo profundo entre autor e leitor.
Neste artigo, exploraremos de maneira ampla o
significado do ter e do ser, suas implicações para o diálogo,
para a leitura e para a vida psíquica, articulando reflexões filosóficas,
psicanalíticas e existenciais.
O modo doter: segurança, controle e ansiedade
O modo do ter organiza a experiência
subjetiva a partir da posse. Não apenas de objetos materiais, mas também de
ideias, opiniões, títulos, identidades rígidas e narrativas fechadas sobre si
mesmo. No diálogo, a pessoa orientada pelo ter entra em uma conversa
para defender posições, afirmar certezas ou garantir reconhecimento.
Nesse registro, o outro não é verdadeiramente
encontrado, mas utilizado como espelho, ameaça ou obstáculo. A escuta torna-se
seletiva, instrumental. O diálogo perde seu caráter vivo e se transforma em
disputa, monólogo alternado ou simples troca de informações.
Do ponto de vista psicológico, esse modo de
funcionamento costuma estar atravessado por ansiedade. Há sempre algo a perder:
prestígio, coerência, superioridade moral, controle da situação. A conversa
deixa de ser um espaço de encontro e passa a ser um campo de defesa do ego.
O modo do
ser: presença, abertura e vitalidade
Em contraste, o modo do ser não se
ancora na posse, mas na experiência. Quem vive nesse registro confia no próprio
processo interno, na capacidade de sentir, pensar e responder de forma criativa
ao que emerge no encontro com o outro.
No diálogo, isso significa estar
verdadeiramente presente. Não se trata de abandonar o pensamento ou a crítica,
mas de sustentar uma postura de abertura, em que algo novo possa nascer da
interação. A pessoa não se apoia em respostas prontas, mas na confiança de que
poderá responder quando for necessário.
Essa atitude produz vitalidade. A conversa
torna-se um acontecimento vivo, imprevisível, transformador. Como sugere o
texto de base, essa vivacidade é contagiosa e frequentemente ajuda o outro a
sair de seu egocentrismo defensivo, abrindo espaço para uma relação mais
autêntica.
Diálogo
como experiência de transformação
Quando duas pessoas se encontram a partir do
modo do ser, o diálogo deixa de ser apenas comunicação e se torna
experiência. Algo acontece entre elas. Não se trata apenas de trocar
informações, mas de ser afetado e de afetar.
Esse tipo de diálogo exige coragem. É preciso
abrir mão da ilusão de controle, tolerar a incerteza e aceitar que o encontro
pode nos transformar. Por isso, nem sempre é confortável. No entanto, é
justamente essa abertura que torna o diálogo uma fonte de crescimento psíquico
e humano.
Na clínica psicanalítica, na educação e nas
relações cotidianas, a diferença entre falar a partir do ter ou do ser
é decisiva. Ela define se o encontro será defensivo e repetitivo ou vivo e
criativo.
A leitura
como diálogo vivo
O texto também nos convida a pensar a leitura
como uma forma de diálogo. Ler não é apenas acumular informações ou “ter”
conhecimento. Quando vivida no modo do ser, a leitura se aproxima de uma
conversa profunda entre autor e leitor.
Nesse sentido, importa não apenas o conteúdo
do texto, mas a atitude do leitor. Ler a partir do ter significa buscar
confirmações, citações, argumentos para reforçar posições já existentes. Ler a
partir do ser implica deixar-se afetar, questionar, deslocar.
Assim como no diálogo interpessoal, a leitura
viva exige escolha. Importa quem lemos, assim como importa com quem falamos.
Alguns textos nos fecham, outros nos abrem. Alguns reforçam defesas, outros
ampliam a consciência.
Implicações
para a vida contemporânea
Em uma sociedade marcada pela aceleração, pelaperformatividade e pela lógica do consumo, o modo do ter tende a se
impor como padrão. Até mesmo as relações, o conhecimento e a espiritualidade
podem ser transformados em objetos de posse.
Recuperar o modo do ser é, nesse
contexto, um gesto quase subversivo. Significa desacelerar, escutar, sustentar
o não saber e valorizar a experiência viva. No diálogo, na leitura e na vida,
trata-se de escolher presença em vez de controle, processo em vez de produto.
Essa escolha não elimina a ansiedade, mas
transforma nossa relação com ela. Em vez de tentar sufocar a vida para garantir
segurança, aprendemos a confiar no próprio movimento do existir.
Considerações
finais
A distinção entre ter e ser não
é apenas teórica. Ela atravessa nossas conversas, nossas leituras e nossas
formas de estar no mundo. No diálogo vivo, assim como na leitura autêntica,
somos convidados a abandonar a rigidez da posse e a entrar na fluidez da
experiência.
Confiar no que somos — e não apenas no quetemos — é o que nos permite estar verdadeiramente vivos. É dessa abertura que
algo novo pode nascer: no encontro com o outro, no encontro com um texto e,
sobretudo, no encontro consigo mesmo.
Palavras-chave : ter ou
ser, modo do ser, modo do ter, diálogo filosófico, leitura como diálogo,
filosofia existencial, psicanálise e diálogo, presença e escuta, Erich Fromm,
experiência de estar vivo.
FROMM, Erich. Ter ou Ser? Rio de
Janeiro: LTC, 1987.
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