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O novo sofrimento psíquico da era digital

  O novo sofrimento psíquico da era digital Entre a performance de si e o esvaziamento da experiência Nunca houve tantas possibilidades de conexão, visibilidade e comunicação. Paradoxalmente, nunca se falou tanto em ansiedade, vazio, crises de identidade e sofrimento psíquico. O mal-estar contemporâneo não pode mais ser compreendido apenas a partir das categorias clássicas da modernidade. Ele exige uma atualização conceitual que leve em conta a digitalização da vida, a performatização do cotidiano e a reorganização profunda das subjetividades. Este texto propõe uma análise do novo sofrimento psíquico da era digital , articulando redes sociais, economia da atenção, transformações do corpo e da identidade, e os modos de vida que as tecnologias não apenas permitem, mas estimulam . Estamos muito cheios — e precisamos nos esvaziar Vivemos um tempo de saturação. Excesso de estímulos, de imagens, de informações, de expectativas e de demandas. O sujeito contemporâneo encont...

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Ter ou Ser: diálogo, leitura e a experiência de estar vivo

 



Ter ou Ser: diálogo, leitura e a experiência de estar vivo

Introdução

Vivemos em uma cultura marcada pela lógica daposse, do desempenho e da acumulação. Ter bens, ter respostas, ter controle,ter reconhecimento. Nesse contexto, não é raro que as relações humanas se tornem empobrecidas, ansiosas e defensivas. O trecho que inspira este artigo aponta para uma distinção fundamental, presente na filosofia, na psicanálise e na psicologia humanista: a diferença entre o modo do ter e o modo do ser.

Durante um diálogo autêntico, as pessoas que vivem no modo do ter confiam naquilo que possuem — ideias prontas, certezas, status, argumentos. Já aquelas que vivem no modo do ser confiam naquilo que são: na própria vitalidade, na abertura ao novo e na capacidade de responder criativamente ao encontro. Essa diferença transforma não apenas a conversa, mas também a experiência da leitura, compreendida aqui como uma forma de diálogo profundo entre autor e leitor.

Neste artigo, exploraremos de maneira ampla o significado do ter e do ser, suas implicações para o diálogo, para a leitura e para a vida psíquica, articulando reflexões filosóficas, psicanalíticas e existenciais.


O modo doter: segurança, controle e ansiedade

O modo do ter organiza a experiência subjetiva a partir da posse. Não apenas de objetos materiais, mas também de ideias, opiniões, títulos, identidades rígidas e narrativas fechadas sobre si mesmo. No diálogo, a pessoa orientada pelo ter entra em uma conversa para defender posições, afirmar certezas ou garantir reconhecimento.

Nesse registro, o outro não é verdadeiramente encontrado, mas utilizado como espelho, ameaça ou obstáculo. A escuta torna-se seletiva, instrumental. O diálogo perde seu caráter vivo e se transforma em disputa, monólogo alternado ou simples troca de informações.

Do ponto de vista psicológico, esse modo de funcionamento costuma estar atravessado por ansiedade. Há sempre algo a perder: prestígio, coerência, superioridade moral, controle da situação. A conversa deixa de ser um espaço de encontro e passa a ser um campo de defesa do ego.


O modo do ser: presença, abertura e vitalidade

Em contraste, o modo do ser não se ancora na posse, mas na experiência. Quem vive nesse registro confia no próprio processo interno, na capacidade de sentir, pensar e responder de forma criativa ao que emerge no encontro com o outro.

No diálogo, isso significa estar verdadeiramente presente. Não se trata de abandonar o pensamento ou a crítica, mas de sustentar uma postura de abertura, em que algo novo possa nascer da interação. A pessoa não se apoia em respostas prontas, mas na confiança de que poderá responder quando for necessário.

Essa atitude produz vitalidade. A conversa torna-se um acontecimento vivo, imprevisível, transformador. Como sugere o texto de base, essa vivacidade é contagiosa e frequentemente ajuda o outro a sair de seu egocentrismo defensivo, abrindo espaço para uma relação mais autêntica.


Diálogo como experiência de transformação

Quando duas pessoas se encontram a partir do modo do ser, o diálogo deixa de ser apenas comunicação e se torna experiência. Algo acontece entre elas. Não se trata apenas de trocar informações, mas de ser afetado e de afetar.

Esse tipo de diálogo exige coragem. É preciso abrir mão da ilusão de controle, tolerar a incerteza e aceitar que o encontro pode nos transformar. Por isso, nem sempre é confortável. No entanto, é justamente essa abertura que torna o diálogo uma fonte de crescimento psíquico e humano.

Na clínica psicanalítica, na educação e nas relações cotidianas, a diferença entre falar a partir do ter ou do ser é decisiva. Ela define se o encontro será defensivo e repetitivo ou vivo e criativo.


A leitura como diálogo vivo

O texto também nos convida a pensar a leitura como uma forma de diálogo. Ler não é apenas acumular informações ou “ter” conhecimento. Quando vivida no modo do ser, a leitura se aproxima de uma conversa profunda entre autor e leitor.

Nesse sentido, importa não apenas o conteúdo do texto, mas a atitude do leitor. Ler a partir do ter significa buscar confirmações, citações, argumentos para reforçar posições já existentes. Ler a partir do ser implica deixar-se afetar, questionar, deslocar.

Assim como no diálogo interpessoal, a leitura viva exige escolha. Importa quem lemos, assim como importa com quem falamos. Alguns textos nos fecham, outros nos abrem. Alguns reforçam defesas, outros ampliam a consciência.


Implicações para a vida contemporânea

Em uma sociedade marcada pela aceleração, pelaperformatividade e pela lógica do consumo, o modo do ter tende a se impor como padrão. Até mesmo as relações, o conhecimento e a espiritualidade podem ser transformados em objetos de posse.

Recuperar o modo do ser é, nesse contexto, um gesto quase subversivo. Significa desacelerar, escutar, sustentar o não saber e valorizar a experiência viva. No diálogo, na leitura e na vida, trata-se de escolher presença em vez de controle, processo em vez de produto.

Essa escolha não elimina a ansiedade, mas transforma nossa relação com ela. Em vez de tentar sufocar a vida para garantir segurança, aprendemos a confiar no próprio movimento do existir.


Considerações finais

A distinção entre ter e ser não é apenas teórica. Ela atravessa nossas conversas, nossas leituras e nossas formas de estar no mundo. No diálogo vivo, assim como na leitura autêntica, somos convidados a abandonar a rigidez da posse e a entrar na fluidez da experiência.

Confiar no que somos — e não apenas no quetemos — é o que nos permite estar verdadeiramente vivos. É dessa abertura que algo novo pode nascer: no encontro com o outro, no encontro com um texto e, sobretudo, no encontro consigo mesmo.


Palavras-chave : ter ou ser, modo do ser, modo do ter, diálogo filosófico, leitura como diálogo, filosofia existencial, psicanálise e diálogo, presença e escuta, Erich Fromm, experiência de estar vivo.

 

FROMM, Erich. Ter ou Ser? Rio de Janeiro: LTC, 1987.

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