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"Explorações sobre a interface entre neurociência, psicanálise e o pensamento filosófico contemporâneo. Descubra as conexões entre a mente, o cérebro e a existência."
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Por que Freud ainda explica o sofrimento de hoje?
Por
que Freud ainda explica o sofrimento de hoje?
Costuma-se
dizer que o sofrimento humano mudou com o passar do tempo. Mudaram os costumes,
as formas de viver, as relações, a tecnologia e até a maneira como falamos de
dor psíquica. No entanto, há algo essencial que permanece: o sofrimento
mudou de forma, mas não mudou de lugar. Ele continua habitando o sujeito,
atravessando sua relação consigo mesmo, com o outro e com a cultura. É
justamente nesse ponto que Freud permanece atual.
Desde
o início da psicanálise, Freud mostrou que o sofrimento não provém apenas do
corpo ou de causas orgânicas, mas, sobretudo, do conflito psíquico. Há
algo em nós que deseja, e algo que proíbe; algo que impulsiona, e algo que
censura. Essa tensão interna, estruturante da subjetividade, é a fonte
permanente do mal-estar.
Freud, ontem e hoje
No
final do século XIX, Freud desenvolveu sua teoria em uma Viena marcada por
profundas contradições. Ao mesmo tempo em que a cidade vivia um período de
expansão urbana, avanços científicos e progresso médico, enfrentava graves
problemas sociais: desemprego crescente, aumento da prostituição e uma
moralidade rigidamente vitoriana que reprimia desejos, afetos e expressões da
sexualidade.
Foi
nesse contexto que Freud propôs ideias que abalaram tanto a ciência quanto a
moral de sua época. Ao afirmar que o ser humano possui uma sexualidade desde a
infância — polimorfa, marcada pela busca de prazer em diferentes zonas do corpo
— Freud provocou escândalo e resistência. Suas teorias passaram a ser vistas
com desconfiança, pois desmontavam a imagem idealizada de um sujeito racional,
moralmente controlado e plenamente consciente de si.
Ainda
assim, Freud insistiu: o sofrimento psíquico não nasce da fraqueza moral,
mas do conflito entre desejo e cultura.
O
que mudou?
Se
no tempo de Freud o sofrimento estava fortemente ligado à repressão — ao “não
pode” —, hoje ele se organiza de outra maneira. Vivemos uma passagem decisiva: do
“não pode” ao “você deve”.
A
sociedade contemporânea é marcada por uma intensa pressão por desempenho.
O sujeito deve ser produtivo, feliz, saudável, desejável, emocionalmente
equilibrado e bem-sucedido — tudo ao mesmo tempo. O fracasso não é mais
interpretado como efeito das condições sociais ou das limitações humanas, mas
como falha individual.
Essa
lógica produz um novo rosto da neurose.
A neurose não desapareceu. Ela apenas mudou de máscara.
O
conflito psíquico continua existindo, mas já não se apresenta como nos sintomas
clássicos descritos por Freud. Ele se manifesta de formas mais difusas,
silenciosas e, muitas vezes, socialmente normalizadas.
O novo sofrimento psíquico
Hoje,
o sofrimento aparece como:
- Ansiedade
constante, um
estado permanente de alerta, como se o sujeito nunca pudesse desligar;
- Sensação
de vazio, mesmo
quando “tudo está bem”;
- Desconexão
de si mesmo,
dificuldade de reconhecer o que sente ou deseja;
- Medo
de parar, como se
o descanso fosse uma ameaça;
- Incapacidade
de descansar sem culpa;
- Internalização
da lógica do desempenho,
na qual o sujeito se cobra incessantemente;
- Relações
cada vez mais frágeis e descartáveis;
- Baixa
tolerância ao desconforto emocional;
- Dificuldade
de saber o que se deseja,
pois o desejo foi colonizado pelas exigências externas.
Nesse
cenário, o sujeito age muito mais do que pensa. A reflexão cede lugar ao ato.
Busca-se satisfação imediata, respostas rápidas, soluções instantâneas para
conflitos que, por natureza, exigem tempo, escuta e elaboração.
O
resultado é um descompasso existencial: expectativas idealizadas, nunca
plenamente alcançadas, produzem frustrações recorrentes, sentimentos de
menos-valia e uma perda gradual da confiança na relação com o mundo e consigo
mesmo.
Freud ainda explica?
Sim
— porque, apesar das transformações históricas, o sofrimento continua sendo
sempre uma resposta a um conflito. Freud não nos oferece promessas de
felicidade plena, mas nos ensina algo fundamental: o mal-estar é inseparável da
condição humana e da vida em sociedade.
Mesmo
em um mundo marcado pela revolução sexual, por novas configurações familiares e
por avanços tecnológicos impressionantes, persiste uma enorme exclusão social.
Apenas uma minoria usufrui plenamente desses benefícios, enquanto muitos vivem
à margem, experimentando sentimentos de inadequação, melancolia e desalento.
O
sistema cultural impõe regras, valores e ideais necessários à vida em comum. No
entanto, é justamente na tensão entre essas normas culturais e as aspirações
singulares do indivíduo que o sofrimento emerge. Essa tensão nunca desaparece —
ela apenas se reorganiza.
Um lugar permanente para a psicanálise
Diante
disso, a psicanálise permanece atual e necessária. Ela não deve se restringir
apenas ao espaço clínico tradicional, mas buscar escutar a psique da
sociedade moderna, interrogando seus ideais, suas exigências e seus modos
de produzir sofrimento.
A
modernidade exige da psicanálise a mesma postura que Freud sustentou: uma
disposição investigativa permanente. Enquanto houver conflito entre desejo e
cultura, entre o que o sujeito é e o que dele se espera, Freud continuará
explicando o sofrimento de hoje — ainda que sob novas máscaras.
E
talvez a pergunta mais importante não seja se Freud ainda explica, mas se
estamos dispostos a escutar o que o sofrimento insiste em nos dizer.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005.
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