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O BURRO MORTO NO RIO E A EDUCAÇÃO INDUSTRIAL

  O BURRO MORTO NO RIO E A EDUCAÇÃO INDUSTRIAL Há histórias simples que, com o passar dos anos, revelam profundidades que antes não percebíamos. Uma dessas histórias era contada por minha mãe sempre que criticávamos o padre para justificar nossa ausência na missa. Ela dizia: “Um homem caminhava havia dias pelo deserto sem beber água. Exausto, com a garganta seca e o corpo enfraquecido, encontra finalmente um riacho de águas cristalinas. Desesperado pela sede, ajoelha-se e começa a beber. A água era fresca, limpa e tinha um sabor extraordinário. Nunca havia provado algo tão agradável. Depois de matar a sede, ele levanta a cabeça e percebe, alguns metros acima, um burro morto atravessado no curso do riacho. A água que ele acabara de beber passava por dentro da carcaça do animal.” Então minha mãe concluía: “O importante não é o caminho que a água faz. O importante é a sede que ela sacia. O padre não é Deus. É apenas um meio que Deus utiliza para transmitir sua mensagem.” ...

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O Medo à Liberdade: Como a Acomodação Social Está Matando Nossas Utopias.




O Medo à Liberdade:

Como a Acomodação Social Está Matando Nossas Utopias

O conceito de "sociedade de deserção" evoca uma realidade em que os indivíduos, ao invés de assumirem a responsabilidade coletiva de engajar-se na construção de uma sociedade mais justa e solidária, optam por um afastamento silencioso e gradual das suas obrigações sociais e políticas. Esse afastamento é alimentado pela aceitação de relações protocolares, isto é, formas superficiais de interação social que mascaram o desinteresse profundo por mudanças estruturais. O resultado é uma forma de convivência marcada pela acomodação e pelo conformismo, na qual as pessoas se limitam a seguir regras e convenções sem questionar as injustiças e desigualdades subjacentes à ordem estabelecida.

Essa acomodação social surge como reflexo de um medo generalizado à liberdade. O conceito de liberdade, aqui, não se refere apenas à liberdade individual de fazer escolhas, mas à liberdade como responsabilidade ativa de transformar a realidade ao nosso redor. Para muitos, essa liberdade é assustadora porque exige uma ruptura com o conforto da previsibilidade e da segurança que as estruturas de poder proporcionam. Abdicar dessa liberdade ativa leva a um estado de apatia, no qual os indivíduos preferem aceitar passivamente a realidade tal como ela é, em vez de lutar por transformações. Este medo à liberdade se manifesta, entre outros, na aceitação de sistemas injustos que mantêm privilégios para poucos e exclusão para muitos.

A aceitação sem perspectivas de uma sociedade mais justa e solidária é a consequência direta desse medo. A esperança de uma mudança radical ou o engajamento com utopias que propõem uma nova ordem social são vistos, cada vez mais, como ideais irrealizáveis ou ingênuos. Essa visão gera uma espécie de morte das utopias, onde o sonho de um futuro melhor é substituído pela crença de que qualquer tentativa de mudança será inglória ou ineficaz. Essa descrença generalizada nas utopias impede que os indivíduos se comprometam com projetos de transformação social, pois já não acreditam na possibilidade de sucesso.

É importante notar que essa "morte definitiva das utopias" não surge apenas de uma falha de idealismo, mas também de uma construção deliberada por parte de estruturas de poder que se beneficiam da apatia social. Ao convencer a população de que as utopias são perigosas ou inúteis, essas estruturas mantêm o status quo e consolidam um sistema onde a desigualdade e a injustiça permanecem incontestadas. O fim das utopias, assim, não é apenas o fim dos sonhos de transformação, mas a consolidação de um sistema que evita ativamente a transformação.

O resultado desse ciclo é uma sociedade cada vez mais atomizada e fragmentada, onde as relações humanas se tornam protocolares e formais, sem profundidade emocional ou solidariedade genuína. A conexão entre os indivíduos é enfraquecida, e a ideia de comunidade e responsabilidade coletiva dá lugar ao individualismo exacerbado. Neste cenário, a noção de um "bem comum" se torna obsoleta, e as pessoas passam a se preocupar apenas com sua própria sobrevivência e sucesso dentro dos limites estreitos impostos pela ordem social vigente.

Em suma, a "sociedade de deserção" é um reflexo de um medo coletivo de liberdade, uma acomodação que mata a possibilidade de sonhar com um mundo mais justo e solidário. A morte das utopias não é apenas a perda de uma visão futura, mas a aceitação resignada de um presente que se perpetua em sua injustiça. Para reverter esse quadro, seria necessário não apenas resgatar o poder das utopias, mas também redescobrir a coragem de viver em liberdade, compreendida como a responsabilidade de agir e transformar, não apenas de escolher entre opções previamente determinadas pelo sistema.

   

                                                     Professor Gabriel de Oliveira

                                                                Psicanalista

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